A importância da 'pelada' na era digital
- Tero Queiroz

- 17 de jul.
- 2 min de leitura

Com o passar dos anos percebi que a bola é quase um detalhe.
O que leva muita gente para a quadra não é a chance de virar craque. É a chance de encontrar pessoas. Parece simples, mas não é.
Depois da faculdade, do trabalho, das contas e das responsabilidades da vida adulta, manter amizade fica mais difícil do que a gente imaginava aos vinte anos. Cada um segue um rumo. Alguns casam, outros mudam de bairro, trocam de emprego, têm filhos, desaparecem da rotina.
Se não existir um motivo para o encontro, o encontro deixa de acontecer.

O futebol amador acaba criando esse compromisso. Toda semana tem alguém perguntando no grupo: “vai ter fut hoje?”. E, muitas vezes, a pessoa vai mais pela resenha do que pelo jogo.
Na quadra se encontra de tudo: jornalista, motorista de aplicativo, servidor público, vendedor, professor, desempregado, empresário, pedreiro, engenheiro e outros. Gente que provavelmente não dividiria o mesmo espaço social em outro contexto.
Ali todo mundo reclama e é juiz de si mesmo, do gol perdido e das faltas "fantasiosas" ou não.
Também existe a questão da saúde. Num período em que passamos horas olhando para celular e computador, correr quarenta ou cinquenta minutos faz diferença. O corpo sente. A cabeça também.
Mas reduzir o futebol amador a atividade física é não entender o que acontece na realidade.
É nesse momento que surgem as conversas sobre trabalho, política, família, problemas pessoais e até oportunidades. Muita ajuda nasce nesses encontros informais. Muita amizade se fortalece ali.
Eu já vi jogador chegar calado e sair rindo. Já vi gente atravessar uma semana difícil e encontrar na quadra um dos poucos momentos de distração verdadeira.
O futebol profissional movimenta milhões, mas futebol amador movimenta a humanidade.
Talvez por isso as peladas continuem existindo mesmo sem patrocínio, sem estrutura e sem glamour. Porque elas oferecem uma coisa cada vez mais rara: tempo compartilhado.
Papo é que ninguém lembra exatamente quem venceu há três semanas. Mas todo mundo lembra da conversa depois do jogo.
E talvez seja justamente aí que esteja a importância do futebol amador hoje: não apenas em manter as pessoas ativas, mas em impedir que as amizades desapareçam no meio da correria da vida adulta e também se digitalizem.








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